ESTRATÉGIA PARA REDUZIR A FOME EM ÁFRICA -- PART 4

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(70)           O PROBLEMA DA FOME 

(71)     A Dimensão da Fome em África

 (72)           De acordo com a FAO, há 186 milhões de pessoas com fome em África. [11] A fome em África deve ser analisada em duas dimensões – longo e curto prazo.  A longo prazo, as populações carenciadas possuem recursos limitados e são incapazes de comprar ou produzir, numa base contínua, a quantidade e qualidade de comida necessária para uma vida saudável.  Esta condição crónica  é mensurável por um indicador denominado desnutrição crónica definido como a altura da criança relativamente à altura normal de uma criança da sua idade.  Na África Sub-Sahariana, a percentagem de crianças que estão com altura abaixo do normal, varia de 15% até 45%, mesmo em países onde não decorram conflitos ou que não sofram de seca grave.  Isto indica que um grande número de crianças estará pouco desenvolvida a longo prazo, tanto fisica como mentalmente, em resultado de uma dieta inadequada.

(73)           Por outro lado, insegurança alimentar de curto prazo, frequentemente resultante de crises ou  faltas sazonais de alimentos, é medido por um indicador denominado desnutrição aguda, ou  seja o peso da criança relativo à altura.  A percentagem de crianças com o peso abaixo do normal,  que enfrentam assim um grave problema nutricional, geralmente varia entre 5% e 10% em países sem crise da ASS.  A Tabela II apresenta os dados de medições nutricionais em oito países Africanos.  Como se verifica pela tabela, o progresso na redução da malnutrição foi diferenciado na melhor das hipóteses, com um aumento na redução do peso normal em quase todos os países e um decréscimo da relação peso/peso normal em metade e um acréscimo na outra metade.  É difícil decidir o que fazer com estes dados, apesar de parecer existir alguma indicação que países que tiveram um rápido crescimento e reduziram a pobreza (Gana, Uganda e Zimbabwe durante este período) tiveram uma redução no número de crianças com altura abaixo do normal para a sua idade, pelo menos nas áreas rurais. [12]   O que é claro é que a malnutrição, tal como a pobreza, é pior nas áreas rurais de todos os países para o qual existe informação.

(74)           Claro que a situação é mais grave em países que enfrentam crises.  As Nações Unidas estimam que cerca de 1% da população Africana, seis milhões de pessoas, são  refugiados ou deslocados.  Em países como Angola, Sudão, Norte do Uganda, Serra Leoa e o Congo não só há grande número de deslocados, como capital foi destruído e fontes de sobrevivência sofreram rupturas.  Para além disso, a maior parte de África está sujeita a secas periódicas e outras catástrofes naturais como as cheias.  Mas no meio de todas estas questões – malnutrição crónica, conflito, seca e fome todos derivam de um causa universal – pobreza.

(75)     Pobreza e Fome

(76)           A médio e a longo prazo a única solução para o problema da fome em África é a redução da pobreza.  Apesar de a fome ter um número de causas próximas tal como fraca qualidade de saúde, colheitas pobres, falta de informação nutricional, conflitos, etc., todas elas são originadas de um factor principal – pobreza.  Pessoas carenciadas são menos saudáveis, menos educadas e mais vulneráveis a choques. A centralidade da pobreza ao problema da fome, e de facto, a todas dimensões de bem estar, é claramente provado numa série de dados compilados pelo Banco Mundial na Pesquisa Demográfica e Saúde, financiado pela USAID.  A Tabela III, que apresenta dados do Quénia, é relativamente típica.

(77) TABELA II:  DADOS NUTRICIONAIS DE CRIANÇAS EM PAÍSES AFRICANOS SELECIONADOS [13]

País (anos)

Primeiro Ano

Segundo Ano

Mudança

             
 

desnutri ção aguda

desnutri ção crónica

desnutri ção

aguda

desnutri ção crónica

desnutri ção \aguda

desnutri ção crónica

 

Urbano:

           

Gana (1988 and 1993)

7.3

24.6

9.1

17.0

1.8

-7.6

Madagascar (1992,1997)

3.8

40.5

5.3

44.8

1.5

4.3

Mali (1987 and 1995)

9.9

19.6

24.9

23.9

15.0

4.3

Senegal (1986 and 1992)

3.5

17.5

8.8

15.2

5.3

-2.3

Tanzania (1991 and 1996)

5.1

38.0

8.1

32.6

3.0

-5.5

Uganda (1988 and 1995)

0.6

24.8

1.4

22.7

0.7

-2.1

Zambia (1992 and 1996)

5.4

32.8

3.3

32.9

-2.1

0.1

Zimbabwe (1988, 1994)

1.4

16.0

6.5

19.0

5.0

3.0

             

Rural:

           

Gana (1988 and 1993)

8.5

31.4

13.1

32.3

4.6

0.9

Madagascar (1992,1997)

6.0

50.6

8.3

49.5

2.3

-1.1

Mali (1987 and 1995)

12.3

26.2

24.4

36.2

12.2

10.0

Senegal (1986 and 1992)

7.1

26.5

13.4

32.7

6.3

6.3

Tanzania (1991 and 1996)

6.4

45.0

7.3

46.1

0.9

1.2

Uganda (1988 and 1995)

2.0

45.2

3.2

40.7

1.3

-4.5

Zambia (1992 and 1996)

5.0

46.5

4.9

48.9

-0.1

2.4

Zimbabwe (1988, 1994)

1.1

34.3

5.6

25.0

4.5

-9.3

(78)           Como se pode verificar, para quase todos os indicadores, o quintil mais rico tem indicadores que são duas, três ou até mais vezes superiores ao quintil mais pobre.  Isto é claramente verdade para os três indicadores de nutrição, assim como para os dois indicadores de saúde.  São relações complexas e nem sempre lineares, mas é claro que a relação entre pobreza e nutrição, pobreza e estado de saúde e pobreza e fertilidade, são fortes.  Assim, qualquer ataque à questão da fome deve ser baseada num ataque à pobreza.


(79)           TABELA III:  POBREZA E INDICADORES  DE  BEM  ESTAR NO QUÉNIA EM 1997

 

Indicador

Quintil do Consumo do Agregado Familiar

               

 

Mais Pobres

Segundo

Médio

Quarto

Mais Ricos

Média

 

Taxa de Mortalidade Infantil

95.8

82.9

58.5

61.0

40.2

70.7

 

Taxa de Mortalidade Abaixo dos 5 anos     

136.2

120.4

92.3

84.9

60.7

105.2

 

Crianças com altura abaixo da média desnutri ção crónica (%)

44.1

37.5

30.2

30.5

17.1

33.0

 

Crianças moderadamente abaixo do peso Normal (%)

31.6

26.7

20.0

17.1

10.3

22.1

 

Crianças fortemente abaixo do peso  Normal (%)

7.1

6.2

3.8

3.4

2.1

4.8

 

Mãe com baixo índice de massa corporal* (%)

17.6

15.5

11.5

8.1

5.5

11.9

 

Taxa de fertilidade total

6.5

5.6

4.7

4.2

2.0

4.7

 

*  Índice de massa corporal, um índice do estado nutricional de um adulto

(80) O PROBLEMA DA POBREZA

(81) A gravidade do problema da pobreza em África é apresentado na Tabela IV.

(82) O rácio "headcount" é definido como a percentagem da população abaixo de linha de pobreza.  A brecha (gap) de pobreza equivale à distância do fraco rendimento do pobre da linha de pobreza, como percentagem da linha de pobreza.  Em outras palavras, uma brecha de pobreza de 23% significa que a pessoa pobre em média, tem um rendimento 23% abaixo da linha de pobreza.

(83) A tabela ilustra os seguintes factos:

·        (84)  A pobreza está difundida em África, sendo a  maioria da população pobre

·        (85)  A pobreza é mais prevalecente e mais grave nas áreas rurais, mas está difundida nas áreas urbanas

·        (86)  Mesmo onde o rendimento é melhor distribuído, a maioria das pessoas não estarão muito acima da linha de pobreza.

(87)    TABELA IV.  POBREZA EM 21 PAÍSES AFRICANOS DURANTE OS ANOS 90 [14]

Indicador r

Rural

Urbano

Global

       

Indice de Incidencia (%)

56

43

52

Indice de pobreza diferencial (%)

23

16

22

Indice do quadrado de pobreza diferencial (%)

13

8

12

Despesa media (US$/pessoa/ano)

409

959

551

Linha de pobreza media (US$/pessoa/ano)

325

558

 

(88)           Muitas das mudanças, em particular a liberalização política e económica, descritas na primeira parte, conduziram a uma certa melhoria na situação de pobreza.  Por exemplo, ao longo de um período de cinco anos, o "Poverty Headcount Ratio" reduziu em 25% na zona rural da Etiópia, 14% no Gana, 30% na Mauritânia e 21% no Uganda.  Em cada um destes países, um novo crescimento conduziu a aumentos no consumo per capita de cerca de 11%.  Ao contrário, em três países (Nigéria, Zambia e Zimbabwe) onde o consumo per capita decresceu numa média de 6.5%, o "Poverty Headcount Ratio" aumentou em 53%, 5% e 26% respectivamente.

(89) A SOLUÇÃO PARA A POBREZA/FOME

(90) Um número de estudiosos referiram que a estratégia mais efectiva para a redução da pobreza e promoção do crescimento económico, é assegurar que o sector agrícola cresça rápidamente. [15]  Em primeiro lugar, o sector rural é onde se localizam a maioria da população carenciada, então um rápido crescimento da economia rural terá um maior e mais directo impacto nessa população.  Segundo, acima de 80% da despesa dos pobres é em alimentos;  uma agricultura em rápido crescimento é baseada num aumento de produtividade reduzindo assim os custos dos bens alimentares.  A redução dos custos dos bens alimentares aumenta o rendimento real dos pobres, urbanos e rurais.  Terceiro, a redução dos custos dos bens alimentares permite aos trabalhadores melhorar os seus rendimentos sem aumento do nível salarial, permitindo assim à economia ser mais competitiva nos mercados internacionais.  Finalmente, um crescimento rápido na agricultura aumenta o rendimento dos agricultores, permitindo-lhes em troca adquirir bens e serviços.  Estudos demonstram que os rendimentos gerados da agricultura, são provavelmente gastos em bens e serviços produzidos internamente e não em bens e serviços importados. [16]  Isto significa que o aumento dos rendimentos agrícolas têm efeitos multiplicadores maiores na produção não agrícola e emprego, do que o crescimento não agrícola.

[11] FAO, The State of Food Insecurity in the World.

[12] As has been documented by Tefft et al. in a set of nutrition studies in Mali, sampling inconsistencies across years make this sort of longitudinal comparison problematic. (Tefft, James, Christopher Penders, Valerie Kelly, John M. Staatz, Mbaye Yade, and Victoria Wise.  “Linkages Between Agricultural Growth and Improved Child Nutrition in Mali.”  MSU International Development Working Paper No. 79.  East Lansing: Michigan State University Departments of Agricultural Economics and Economics: 2000. at: http://www.aec.msu.edu/agecon/fs2/papers/idwp79.pdf

[13] Sahn, David E., Paul A. Dorash and Stephen Younger. 1999, “A Reply to De Maio, Stewart and van der Hoeven,” World Development 27 (3) 471-75.

[14] Can Africa Claim the Twenty-First Century, The World Bank, p.90.

[15] See for example:

 African Development Bank, Agriculture and Rural Development Sector Report,

Niama Nango Dembélé, “Sécurité Alimentaire en Afrique Sub-saharienne: Quelle Stratégie de Réalisation?” mimeo, February, 2001.  See for example:

 African Development Bank, Agriculture and Rural Development Sector Report,

Niama Nango Dembélé, “Sécurité Alimentaire en Afrique Sub-saharienne: Quelle Stratégie de Réalisation?” mimeo, February, 2001. http://www.aec.msu.edu/agecon/fs2/africanhunger/securitealimentaire.pdf 

Timmer, C. Peter.  1998.  “The Agricultural Transformation.”  In Eicher, Carl, and John Staatz (eds.) International Agricultural Development (third edition).  Baltimore: Johns Hopkins University Press, and

Gem Argwings-Kodhek, T.S. Jayne, and Isaac Minde. 1999. African Perspectives on Progress and Challenges in Agricultural Transformation.  http://www.aec.msu.edu/agecon/fs2/polsyn/number47.pdf

[16] Cf. Christopher L. Delgado, Jane Hopkins, Valerie Kelly et. al., ”Agricultural Growth Linkages In Sub-Saharan Africa,” International Food Policy Research Institutey, Research Report #107, December, 1998.

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